Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

quotidiano delirante (13)
– as maiorias silenciosas que fazem barulho e a hipocrisia reinante

Se há momentos em que me assalta aquela incómoda e desconfortável vergonha pela prática de actos por parte de terceiros, ontem, dia 1 de Maio de 2012 foi um desses dias, ao ter conhecimento da lamentável atitude «promocional» da cadeia de supermercados Pingo Doce.
Não pelo lastimável espectáculo proporcionado pelo rebanho despolitizado, egoísta e/ou realmente carenciado (que também os há-de haver e em quantidade), pois esses são os habitantes do «Portugal profundo» que existe em tantos de nós, as «maiorias silenciosas», ordeiras, trabalhadeiras mas oportunistas ou «sobreviventes», que vendem, entretanto, a alma ao diabo por um prato de lentilhas… desde que sejam elas a comê-lo. Aqueles que nos tempos salazarentos afirmavam, com uma espécie de corajosa covardia, que a política deles era o trabalho e que se davam muito bem com isso.
Os mesmos que, hoje, vão dizendo a mesma coisa, escudados no argumento falacioso de que o que o país precisa é de «trabalho», para sair da «crise», mesmo que seja trabalho escravo, indigno ou ilegítimo.
Mas pela atitude da corja empresarial deste tipo de calibre – pois creio bem que existe outro tipo de empresários –, mais a cáfila de assessorias que os ilumina, que é capaz de abandalhar – com a conivência do rebanho acima, de quem interpretaram bem o sentir – o dia que deve ser o mais caro para quem tenha do trabalho a devida noção do que isso representa para a dignidade maior do ser humano na comunidade em que se insere.
Cinquenta por cento de desconto em compras acima de cem euros, entretanto, coloca-nos questões elementares, a responder com urgência por quem chefia o Estado da nação:
– Se estes descontos puderam fazer-se sem prejuízo, então o lucro nas transacções habituais é abusivo, desonesto e merecedor de punição pública;
– Se, pelo contrário, estivemos em presença de «dumping», com venda de produtos abaixo do preço de custo, então a atitude cai sob a alçada da lei vigente e impõe-se célere e conclusiva bordoada nos espertalhóides que a promoveram, através de mera aplicação legal – que a ASAE sirva, enfim, para alguma coisa, na defesa efectiva dos interesses do cidadão;
Entretanto, convém não perdermos de vista que, num ou noutro caso, o extraordinário fluxo financeiro que correu pelas caixas do Pingo Doce estará hoje a ser encaminhado para a sede do grupo domiciliada no estrangeiro, com manifesto e consabido prejuízo para a economia nacional.
Ora, isto, assim configurado, permite-nos dizer aos distintos governantes eleitos que nos calharam em sorte que podem limpar as mãos à parede com a autorização concedida a estes grandes grupos de interesses para abrirem portas em dia feriado de alcance mundial. Para além de se ter promovido uma profunda clivagem entre os cidadãos civicamente conscientes e os consumismo-dependentes.
Claro que, neste caso, os nossos gurus de serviço não se perturbam com a imagem que transmitimos aos «mercados». Afinal, a malta até ainda tem uns troquitos guardados para alinhar nestes desvarios. E isso é o que os «mercados» querem saber… e o resto é conversa.
Falta agora que o senhor ministro das Finanças faça um levantamento e retire rendimentos de inserção social e/ou isenções de pagamento de taxas moderadoras àqueles que tenham acorrido, ontem, às catedrais do consumo. É que no aproveitar é que vai o ganho e, assim como assim, lá irão pagar outra vez alguns mais dos mesmos…
Também como alguém disse, o acto teve outro grande mérito: serviu como ensaio geral para quando as grandes superfícies forem assaltadas pela multidão dos descamisados com fome. Mas, claro, nessa fase sem passarem pelas caixas.

a falta que um Miguel Portas pode fazer-nos

Uma persistente, incómoda e inabitual indisposição impediu-me, muito lamentavelmente, de me associar fisicamente às homenagens a Miguel Portas.
Aqui fica, então, um frágil apontamento que se pretende, ainda assim, apenas ser o testemunho solidário de um cidadão.
Miguel, um exemplo supremo de ser humano. Um exemplo a ter em conta, indubitavelmente. Uma referência diversa e sublinhada num panorama de figuras políticas sem graça e sem nexo.
Um daqueles homens que nos fazem sentir que a Vida vale a pena ser vivida e que nos lega a responsabilidade, não de o imitar, mas antes de erguer o estandarte por momentos caído e que nos cumpre erguer de novo e prosseguir na estrada larga da defesa das causas e da prossecução do objectivo de uma Humanidade mais justa, mais solidária, mais esclarecida, mais digna para todos.
Um Homem, enfim. E já lhe sentimos a falta.  

reflexões da gripe
– lemas…

Nos tempos salazarentos, lembram-se, decerto, do grande lema do regime:

Deus, Pátria e Família 

Agora que, como todos sabemos, as coisas estão muito mudadas – vá lá saber-se para onde… –  há um novo lema que nos anima:

Adeus, Pátria e Família 

25 de Abril sempre?
Claro! Cada vez mais…

Por nós, pela memória de José Afonso, estaremos no 25 de Abril com um cravo feito de poemas na Calçada do Combro, em Lisboa, pelas 19 horas, no Mini Teatro da Calçada.
Venham daí! E sigam o preceito solidário que a canção aconselha: tragam um amigo, também!

Foi em 25 de Abril de 1974. Lembram-se? Uma brisa só foi capaz de afastar a névoa mais densa. Mas uma brisa de vontade, de constância, de coragem. E todos os medos redescobriram que, afinal, em cada dia uma alvorada desponta e saíram, por fim, à rua numa ânsia imparável de Liberdade, solidários, numa corrente feita de seres humanos, maré alta na cidade.
Uma coragem nascida da ansiedade e receios mal contidos, mas de cravo ao peito e uma nova alma na voz, derramou na urbe um mar de gente vitoriando os «capitães de Abril» e, nesse inquantificável momento cósmico, Portugal renasceu… e todos nós com ele!    

E aos que criticam, hoje, os militares de Abril por não comparecerem nos «festejos oficiais» de um Abril espartilhado pelos interesses reinantes, a esses gostaria de lembrar que nem essa comparência terá estatuto obrigatório – pois seria inequívoco tique ditatorial – nem ninguém de coluna vertebral íntegra está impedido de manifestar a sua discordância pelo actual estado da nação do modo que tiver por mais adequado. Senão, cabe aqui questionar o que muitos vão questionando: então, que raio de liberdade é esta?

poesia com Maria Azenha

Trazer uma poetisa como convidada a uma sessão de Noites com Poemas, muito para além de aparente redundância, é uma afoiteza pouco comum na matriz que se desenvolveu ao longo de cada uma das nossas sessões…
… e vão contadas 74. Na verdade, as múltiplas facetas da vida e dos saberes que nos vão sendo trazidas por cada convidado, constituem elas outros tantos desafios à criatividade, na diversidade de olhares a que cada participante se sinta impelido. 

Assim, então, Maria Azenha. Afável, amena, incisiva e irónica, sofrida e. logo mais, contundente e afirmativa; lírica, sim, mas terrena e terreal; dona de uma bela voz e de correspondente arte de dizer…   

… coube-lhe a ela a missão de engrandecer esta sessão e a nós o privilégio de a termos connosco. Carlos Peres Feio sublinhou o acolhimento e a apresentação da autora, de quem acabámos por descobrir percursos próximos…  

… para além dos afectos comuns, circunstância sempre presente neste Portugal tão pequeno de geografia como imenso na arte dos afectos e das cumplicidades – e aqui se fala das boas cumplicidades, das que sabem e fazem bem a quantos queiram embarcar em navegações deste quilate.

Como sempre – ó vaidade das vaidades – a sala apresentou-se bem preenchida e palpitante de vida…

… dispensando farto aplauso a Maria Azenha, realçado por espontâneas declarações de gratidão e apreço de muitos dos presentes. 

Dir-me-ão que tudo isso não irá além da palavra de circunstância, do afago que pouco custa e cai sempre bem… Será. Ou talvez não. Talvez seja, isso sim, o reconhecimento por mérito assumido publicamente, onde a exposição de cada um vale como assinatura lavrada em testemunho.  

E foram, na verdade, muitos a assumi-lo. Porque ali estamos, reunidos e encontrados uns com os outros por acto voluntário e determinado, sacudindo grilhetas de comodismo e conformismo, dando e recebendo o que de melhor cada um traz para partilhar.

E não sendo isso o bastante para mudar o mundo, certo é ser  isso mesmo o bastante para o manter a rodar.

A entrega da certidão com que a Vereação da Cultura da Câmara Municipal de Cascais, solidária com esta iniciativa de munícipes, sempre faz questão de agraciar cada um dos nossos convidados e que tem, obviamente, sempre o melhor acolhimento.

Depois, como sempre, a hora de dar voz a quem esteve a ouvir. E, uma vez mais, foram muitos a dar o passo:

– Maris Francília Pinheiro

– Hélio Proença

– Ana Teixeira Freitas

– João Baptista Coelho

– Rosário Freitas 

– Eduardo Martins

– Francisco José Lampreia

– Miguel Partidário

– Emília Azevedo

– Luís Perdigão

– Tina

Fotografias de Lídia Castro e de Lourdes Calmeiro

E deixo-vos com um poema de Maria Azenha que me caiu especialmente no goto:
Para o primeiro dia do ano

a tarde não está para versos e a noite
irá varrer todos os passos do primeiro dia do ano.
é no hall de entrada das ruas, junto aos caixotes de lixo,
que lisboa desaba.

há quem diga que as plantas não passam fome,
nem sofrem de solidão.

vendo bem ou vendo mal qualquer verso magoa

– Maria Azenha

– cartaz de Alexandre Castro

Contamos convosco para o próximo dia 20 de Abril, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana (Bairro Massapés, Tires).
Connosco teremos Maria Azenha que nos trará a sua poesia. Dos diversos sítios desta complexa rede que abrange o mundo à distância de um teclado, respigo:
Maria Azenha nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Exerceu actividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio.
Mas encontro-lhe outros encantos se vos falar, por exemplo e assim ao correr da pena – que por vezes se quer da leveza da espada… – num muito breve extracto da sua Carta ao Ano Novo (em Dezembro de 2011):
Senhor Futuro!
É com grande preocupação que lhe escrevo.
Minha tristeza é de marca e tem pedigree.
Vem do Passado com longas árvores
E palavras maduras nos frutos.
Como toda a gente nasci num quarto.
Conheci a ditadura entre os dentes .
Os livros, entendi como pude. (…)
Cultiva, ainda, a arte de dar a própria voz aos seus poemas, semeando-os assim pelo fértil, ainda que áspero, terreno arável em que vivemos.
Cá a teremos connosco. O vosso lugar, como sempre, está reservado.
Abraços.

a Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012

de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada

e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade

foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas

ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade

legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa de operário

há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo

Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós

Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?

– Jorge Castro

uma sugestão de navegações

Amanhã, sexta-feira, dia 13, pelas 19 horas teremos a sorte de ouvir estas duas excelentes oradoras: Gabriela Morais e Fernanda Frazão. Imperdível… pelo menos para quem possa.

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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