Sendo este um espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.
quotidiano delirante (13)
– as maiorias silenciosas que fazem barulho e a hipocrisia reinante
a falta que um Miguel Portas pode fazer-nos
reflexões da gripe
– lemas…
Nos tempos salazarentos, lembram-se, decerto, do grande lema do regime:
Agora que, como todos sabemos, as coisas estão muito mudadas – vá lá saber-se para onde… – há um novo lema que nos anima:
25 de Abril sempre?
Claro! Cada vez mais…
poesia com Maria Azenha
E deixo-vos com um poema de Maria Azenha que me caiu especialmente no goto:
Para o primeiro dia do ano
a tarde não está para versos e a noite
irá varrer todos os passos do primeiro dia do ano.
é no hall de entrada das ruas, junto aos caixotes de lixo,
que lisboa desaba.
há quem diga que as plantas não passam fome,
nem sofrem de solidão.
vendo bem ou vendo mal qualquer verso magoa
– Maria Azenha
a Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012
de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada
e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade
foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas
ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade
legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa de operário
há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo
Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós
Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?
– Jorge Castro
quotidiano delirante (12)
– à consideração de todos
uma sugestão de navegações
4 Estações sobre Monsanto, de Sérgio Guerreiro
É de ver, absolutamente. E de colher inspiração. Tranquilamente. Sem espaço de crise. Poeticamente.

































