fotografando o dia (80)

se o mar fizesse na areia
os castelos como nós
só o vento os desfaria
e o vento é o mar que o faz

mas vento ronda castelos
rasga sulcos ao passar
marca o rumo pelas estrelas
e leva-os de volta ao mar


– foto e poema de Jorge Castro

Duas sugestões
para o próximo dia 18 de Julho
em Cascais

Está prevista para o dia 18, a partir das 18.30 h., no Centro Cultural de Cascais, a apresentação, pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa, do livro Recantos de Cascais, da autoria do Professor José d’Encarnação.

No sábado seguinte, dia 21, das 17 às 19 h., haverá sessão de autógrafos na Feira do Livro, em Cascais.

Trata-se de uma edição da Câmara Municipal de Cascais e de Edições Colibri, que teve o apoio do Jornal da Região, da Sociedade Estoril-Sol e das juntas de freguesia de Carcavelos, Cascais, Estoril, Parede e S. Domingos de Rana.

Para aguçar um pouco a vossa curiosidade, direi apenas que, conforme estamos habituados por parte do seu autor, não deixará de constituir, a par de um cordão encadeado de afectos, um acervo de conhecimentos, referências e curiosidades sobre o concelho de Cascais, as suas gentes e os seus lugares. A não perder, pois, por todos aqueles que se interessam por estas “pequenas” coisas de que, afinal, nós e o mundo somos feitos.

Noites com Poemas

– cartaz de Alexandre Castro
Após essa apresentação, haverá decerto tempo para participar no encontro de poesia Noites Com Poemas, pelas 22 horas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana.
Desta feita, o tema proposto para a sessão é Canto de Cor(es), sugerindo aos participantes a poesia cantabile, colorida e de coração.
Eu lá estarei, contando ou cantando consigo, contigo, convosco.

Das realidades criadas por alguns Belmiros que outros Sócrates sustentam – ou um certo Portugal de futuro incerto e precário, a 500 € por mês…

… e já gozas… Numa família perto de si.
Não, não é ficção. E também nem drama é.
É uma merda!
– Estou, mãe? Olha, pá, queria que me fizesses um favor…

Trabalha há cerca de cinco anos. Tem um décimo segundo para acabar e já ultrapassou os vinte e cinco de idade. Entre vodafones daqui e grandes superfícies dali, entremeadas com uma loja que vendia periquitos num Centro Comercial e que, entretanto, faliu, conta já com uma meia-dúzia de empregos ao longo de oito anos de vida. Este último tem estado a correr bem. Ganha quase 500 € por mês e, apesar de ter uma carga horária de quase doze horas por dia, não é mau. É chato, aquilo da caixa, quando falta dinheiro mas, entre todos, lá se vão safando, que a equipa até que nem são maus gajos.
Vai uma vez por outra beber uns copos com os amigos, mas é raro. Por acaso até nem engraça com o futebol. É um tipo certinho, todos dizem. Puto normal. Até percebe umas becas de computadores, que andou aí a tirar uns cursos. Caros, p’ra caraças, mas ainda assim, que quem não sabe de computadores, já se sabe como é que é…

Com o IRS é que vai uma confusão danada. Recibos verdes a meias com esquemas de ocasião, é de um tipo se passar e o melhor é arranjar um contabilista, pois está farto de pagar às Finanças aquilo que não entende. A chatice é que os gajos pagam-se…

– Pois, mãe. Apareceu-me aqui um aviso dos correios… Tem oito dias para levantar e já passaram três e eu, às horas que os gajos dizem, não posso lá ir, senão correm comigo do emprego. Ainda para mais o encarregado anda a dizer que há gente ali que já ali anda há muito tempo…

Acabou de comprar uma casa num bairro de Lisboa. Baratucha, claro. Um grande esquema que a mãe lhe arranjou com gente amiga. Uma velhota que morreu, sem chatices com herdeiros. Pequenita e tal, a precisar de umas obritas, mas é fixe, ali perto da baixa. O empréstimo é que foram elas. E, agora, o que lhe vale é que a mãe lhe paga metade da prestação, senão estava feito. Mais de trezentos euros por mês, meu!… Mais transportes e chope-chope, já nem sobra p’rà luz e pr’ò gás. Mas este último emprego já dura há mais de oito meses e ele é a namorada e tal, ‘tás a ver? Eh, pá, que um tipo tem de orientar a vida. Até ver, está lá sozinho, mas está a pensar convencer a miuda, que também já faz uns biscates para uma firma de arquitectos, a juntar os trapinhos…

– Olha que eu tenho a impressão que isto é das Finanças. Diz aqui que é de uma DG qualquer coisa, que não se consegue ler… Sabes o que é? Se calhar não está completo… Mas diz que é uma carta. Mas eu não consigo lá ir a estas horas… Não és capaz de me desenrascar isto? Pá, a declaração do ano passado parece que estava toda engatada e, se calhar, é isso. Também, a tipa lá dos pássaros nunca me passou os recibos dos pagamentos e, na volta, engatei a declaração toda. Mas acho que ela declarou os pagamentos ou não sei quê… Tás a ver? Mas o pior é que eu não tenho tempo para tratar disto.

A mãe tem um emprego estável, com uma boa mão-cheia de anos de casa e um percurso profissional longe de brilhante, mas digno do maior crédito por parte da entidade patronal, que lha paga… pagando a tempo e horas, ainda que isto para promoções esteja mau, não é?, o que faz com que ela se mantenha, solidamente, na mesma categoria vai para quinze anos.

– Está bem, filho. Eu a ver se logo me desenfio daqui um bocado mais cedo, que o patrão nem nota, e vou lá dar um salto aos correios a ver disso. De caminho deixo-te lá umas coisas em casa… O frigorífico já está bom, não está? E deixo-te a camisa e as calças da farda, que já fui buscar à lavandaria. Vê lá se consegues que te dêem outra farda, que isto assim é uma canseira e uma correria e eu também não tenho tempo para tudo.

Afinal, o filho perdeu o emprego naquele mesmo dia. O encarregado estava farto de o avisar que não havia chamadas particulares para ninguém no horário de serviço. Bem argumentou que a mãe é que lhe tinha ligado…

– Isto é assim: aqui quem quer emprego, cumpre! Estás farto de saber como é que é, pá! Tem paciência. Também, já cá estavas quase há um ano… Olha, é assim: deixa-te lá estar inscrito onde estavas, que eu daqui a dois ou três meses estou a precisar de gente. De certezinha!

O encarregado anda sempre de fato. Tem trinta anos e já está naquilo vai para três. Não conhece ninguém que tenha aguentado tanto tempo. Parece que lá na Direcção gostam dele. E ai dele se não controla aqueles putos. Mais uns anitos e até são capazes de o deixar entrar para o quadro. Agora estes putos, parece impossível, esta malta não cresce, pá!…

(Na volta, podia deixar-se isto à consideração da dúzia e tal de candidatos à Câmara de Lisboa, para o repovoamento da capital.

Ah, e se alguém me vier com tretas de que isto é um dramazito de classe média baixa, pode meter a opinião onde o sol não brilha! Opiniões dessas, tenho para aí às dúzias. Interessa é saber que, afinal, se calhar é com estas e algumas outras que se arranja o dinheirinho para brincar às OPAS… não será?

Entretanto, claro, se alguém arranjar para aí um ganchozito, o puto agradece, pois está outra vez pendurado…)

fotografando o dia (79)

ter apenas de nós breve momento
na vitrina intemporal
de cada dia
que se faz de nós feito
e já sem tempo
deixa em nós
o que o futuro
anuncia


– foto e poema de Jorge Castro

– Fotografia obtida através dos jogos de reflexos na fachada do Ministério da Educação, em Lisboa. (Neste jogo de sombras chinesas em que se transforma o nosso quotidiano, fica-me, por vezes, a ilusão de que a realidade não existe, mas tão só o que cada imagem dela me mostra. Sendo, geralmente, mais cómodo, ainda bem que assim não é…)

os inocentes do costume…

Depois das mais recentes declarações do senhor Bastonário da Ordem dos Médicos, lê-se no Público de 05 de Julho de 2007: “Os Ministérios das Finanças e da Saúde convidaram o bastonário da Ordem dos Médicos a apresentar sugestões para melhorar o funcionamento das juntas médicas da Caixa Geral de Aposentações”.
E lá continuamos a alimentar os tiques que nos vivem entranhados na pele desde tempos imemoriais e que constituem esta nossa matriz de portugalidade: depois de casa roubada, trancas à porta.

É preciso que haja mártires para que desperte a consciência cívica dos poderes instituídos que, supostamente, existem para prestar serviço público. Pelo caminho alimentam-se as iniquidades e pactua-se com o laxismo, vitamina que alimenta o compadrio…

Quem não sabe, de boa mente, que as Juntas “Médicas” a que temos direito funcionam como funcionam? E, de súbito – ó espanto! – afinal, ele há administrativos nas Juntas ditas “Médicas” e ele há médicos que se esqueceram do juramento de Hipócrates!

Continuo, no entanto, convicto de que a questão se coloca na perspectiva de que “se de um lado chove, do outro troveja”. E falo, claro destes diversos organismos que regulam e regulamentam as nossas vidas.

Assim sendo, não é admissível que uma Junta “Médica” declare, por absurdo, que um amputado das duas pernas esteja pronto para serviço activo, sendo que a tarefa que esse mesmo amputado desempenha seja, por exemplo, a de estafetagem… Porém, a sua entidade empregadora, se obriga o amputado a exercer a função escudando-se no parecer “técnico” da Junta, não revela menor desumanidade! Enfim, nada disto será razoável… Mas ocorre!

Depois, presumem que lhes basta dar uma de preocupados, afirmando que é preciso corrigir estes disparates, como se isso não fosse gritantemente óbvio desde a alvorada dos tempos para os cidadãos que vivem a vida fora das politiquices.

O que é mais curioso é que os tais poderes estabelecidos persistam na convicção de que somos todos um rebanho de ingénuos inocentes. E, pelos vistos, têm bastante razão e fundamento nessas convicções…

Repelente, repugnante…

Artur Silva, Professor de Filosofia ao longo de mais de trinta anos, morreu a trabalhar, na Escola Secundária Alberto Sampaio, em Braga, segundo respigo de um artigo do Correio da Manhã, de 03 de Julho de 2007.

Morreu, segundo o artigo, padecendo de um cancro na garganta e após ”amigdalectomia esquerda e laringectomia total, com esvaziamento gangliconar cervical funcional bilateral e traqueostomia permanente”, aos 60 anos de idade.

Após a intervenção acima e com ausência total e irrecuperável da voz, o Professor pediu a aposentação. Avaliado o seu pedido por Junta Médica, em 18 de Abril de 2006, sem a presença do paciente, terá sido emitido o veredicto de que “nada o impedia de exercer as suas funções”, tendo-lhe sido recusada a aposentação.

É tão lastimável, tão desumana, tão atroz, tão repugnante esta história que, sendo verdadeira e a não haver formais e consistentes desmentidos oficiais, será imperioso, no mínimo, que sejam divulgados os nomes, para opróbio público, dos elementos que constituíram aquela Junta.

Para que a culpa morra solteira à mesma, como é hábito neste país empastelado em compadrios, mas para que me seja a mim, cidadão, ao menos permitido mudar de passeio ao cruzar com algum dos elementos constituintes de tão extravagante Junta, para não ser atingido pela pestilência que, seguramente, de tais personagens se evola!


Sim, porque estas atitudes têm caras. Não precisou Hitler de se deslocar aos campos de concentração para que as câmaras de gás funcionassem em pleno. Lá tinha os seus títeres. E a situação descrita, a ser verdade o que se divulga, assume foros de nazismo.

Haja limites claros, nas sociedades ditas democráticas, para o abanar das caudas ao dono por parte de sabujos deste quilate!

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Deixaria, ainda, à consideração do senhor Presidente da República, também ele Professor, que honrasse a memória deste seu Colega, agraciando-o com a Ordem da Liberdade, nas próximas comemorações do Dia de Portugal, como gesto de elementar ressarcimento por tão gravosa ofensa que lhe foi feita, que a todos, enquanto nação, nos envergonha. E, como é sabido, não apenas a este…

Notícia em 04 de Julho de 2007:

A directora da DREN veio à liça (ver jornal Público desta data) assegurar que “a DREN garantiu todas as condições ao professor…”. À brutalidade soma-se a hipocrisia.

Obviamente que os Colegas do Professor, com o bom senso e a solidariedade de “companheiros de armas”, lhe terão facilitado a vida, por razões de elementar humanidade, após a obrigação de retoma das aulas. Mas a DREN não terá sido aí perdida nem achada!

O que fará, então, correr a senhora Directora, metendo-se onde ninguém a chamou? Quererá “amortecer” o impacto negativo da tal Junta, ainda que não me pareça que esse organismo esteja sob a sua estrita alçada? Estranho…

Ou pretende apenas, com um afã digno de registo, branquear a cadeia de iniquidades, assumindo-se como parte do poder instituído e, por isso, obrigada a definir (e defender) o seu lado da barricada?

Tanta falta de jeito! Tanta desumanidade! Tanto desviver! Tanto culto da mediocridade!

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Dos comentários lidos no Público acerca da situação que se descreve, permito-me destacar o testemunho de uma aluna do Professor Artur Silva, devidamente identificada, apenas como peça de relevância para sabermos todos de que “material humano” estamos a falar:

Por Márcia Oliveira, Braga

Só me posso sentir indignada para além de triste com tudo isto. Conheci este professor, no 10º ano foi meu professor de Filosofia, já lá vão 14 anos. Era uma excelente pessoa e um pedagogo como há poucos, gostava da matéria que ensinava e sabia fazer-nos apreender com gosto, para além de nunca nos recusar uma palavra de incentivo. Nessa altura, e já depois de deixar de ser nosso professor no 11º ano, chegou a dar-nos aulas gratuitamente, fora do horário de trabalho dele, quando nós já nem sequer éramos alunos dele, apenas porque nós estávamos com receio da Prova Global (foi em época de Reforma Educativa em que tudo era novo e causava vários receios nos estudantes) e por isso ele aceitou ajudar-nos, deu-nos algumas “aulas de preparação” que serviram sobretudo de reforço positivo para a prova que íamos fazer. Ninguém lhe pagou, ninguém o poderia obrigar a fazer isso, já nem sequer era nosso professor nesse ano, mas fez, simplesmente porque se importava. Não fugiu ao trabalho, bem pelo contrário nunca “faltou” aos seus alunos e foi tratado miseravelmente pelas entidades que tutelavam a sua actividade, como se se tratasse de alguém que estava a querer fugir mais cedo ao trabalho! Vergonha é o que sinto pelo país que temos e um receio profundo de algum dia poder ser atendida em caso de emergência médica pelos “profissionais” que faziam parte dessa Junta Médica… onde está o respeito pela pessoa humana que dever pautar a actividade de qualquer profissional e neste caso dos médicos? E a DREN fez tudo o que podia? Fez o quê? Obrigou-o a regressar ao trabalho mesmo não estando em condições de o fazer? É isso “tudo” que pode fazer por alguém que foi tão injustamente tratado depois de tudo o que fez enquanto podia exercer saudavelmente a sua actividade?