fotografando o dia (80)
os castelos como nós
só o vento os desfaria
e o vento é o mar que o faz
mas vento ronda castelos
rasga sulcos ao passar
marca o rumo pelas estrelas
e leva-os de volta ao mar
– foto e poema de Jorge Castro
mas vento ronda castelos
rasga sulcos ao passar
marca o rumo pelas estrelas
e leva-os de volta ao mar
No sábado seguinte, dia 21, das 17 às 19 h., haverá sessão de autógrafos na Feira do Livro, em Cascais.
Trata-se de uma edição da Câmara Municipal de Cascais e de Edições Colibri, que teve o apoio do Jornal da Região, da Sociedade Estoril-Sol e das juntas de freguesia de Carcavelos, Cascais, Estoril, Parede e S. Domingos de Rana.
Para aguçar um pouco a vossa curiosidade, direi apenas que, conforme estamos habituados por parte do seu autor, não deixará de constituir, a par de um cordão encadeado de afectos, um acervo de conhecimentos, referências e curiosidades sobre o concelho de Cascais, as suas gentes e os seus lugares. A não perder, pois, por todos aqueles que se interessam por estas “pequenas” coisas de que, afinal, nós e o mundo somos feitos.
Com o IRS é que vai uma confusão danada. Recibos verdes a meias com esquemas de ocasião, é de um tipo se passar e o melhor é arranjar um contabilista, pois está farto de pagar às Finanças aquilo que não entende. A chatice é que os gajos pagam-se…
– Pois, mãe. Apareceu-me aqui um aviso dos correios… Tem oito dias para levantar e já passaram três e eu, às horas que os gajos dizem, não posso lá ir, senão correm comigo do emprego. Ainda para mais o encarregado anda a dizer que há gente ali que já ali anda há muito tempo…
Acabou de comprar uma casa num bairro de Lisboa. Baratucha, claro. Um grande esquema que a mãe lhe arranjou com gente amiga. Uma velhota que morreu, sem chatices com herdeiros. Pequenita e tal, a precisar de umas obritas, mas é fixe, ali perto da baixa. O empréstimo é que foram elas. E, agora, o que lhe vale é que a mãe lhe paga metade da prestação, senão estava feito. Mais de trezentos euros por mês, meu!… Mais transportes e chope-chope, já nem sobra p’rà luz e pr’ò gás. Mas este último emprego já dura há mais de oito meses e ele é a namorada e tal, ‘tás a ver? Eh, pá, que um tipo tem de orientar a vida. Até ver, está lá sozinho, mas está a pensar convencer a miuda, que também já faz uns biscates para uma firma de arquitectos, a juntar os trapinhos…
– Olha que eu tenho a impressão que isto é das Finanças. Diz aqui que é de uma DG qualquer coisa, que não se consegue ler… Sabes o que é? Se calhar não está completo… Mas diz que é uma carta. Mas eu não consigo lá ir a estas horas… Não és capaz de me desenrascar isto? Pá, a declaração do ano passado parece que estava toda engatada e, se calhar, é isso. Também, a tipa lá dos pássaros nunca me passou os recibos dos pagamentos e, na volta, engatei a declaração toda. Mas acho que ela declarou os pagamentos ou não sei quê… Tás a ver? Mas o pior é que eu não tenho tempo para tratar disto.
A mãe tem um emprego estável, com uma boa mão-cheia de anos de casa e um percurso profissional longe de brilhante, mas digno do maior crédito por parte da entidade patronal, que lha paga… pagando a tempo e horas, ainda que isto para promoções esteja mau, não é?, o que faz com que ela se mantenha, solidamente, na mesma categoria vai para quinze anos.
– Está bem, filho. Eu a ver se logo me desenfio daqui um bocado mais cedo, que o patrão nem nota, e vou lá dar um salto aos correios a ver disso. De caminho deixo-te lá umas coisas em casa… O frigorífico já está bom, não está? E deixo-te a camisa e as calças da farda, que já fui buscar à lavandaria. Vê lá se consegues que te dêem outra farda, que isto assim é uma canseira e uma correria e eu também não tenho tempo para tudo.
Afinal, o filho perdeu o emprego naquele mesmo dia. O encarregado estava farto de o avisar que não havia chamadas particulares para ninguém no horário de serviço. Bem argumentou que a mãe é que lhe tinha ligado…
– Isto é assim: aqui quem quer emprego, cumpre! Estás farto de saber como é que é, pá! Tem paciência. Também, já cá estavas quase há um ano… Olha, é assim: deixa-te lá estar inscrito onde estavas, que eu daqui a dois ou três meses estou a precisar de gente. De certezinha!
O encarregado anda sempre de fato. Tem trinta anos e já está naquilo vai para três. Não conhece ninguém que tenha aguentado tanto tempo. Parece que lá na Direcção gostam dele. E ai dele se não controla aqueles putos. Mais uns anitos e até são capazes de o deixar entrar para o quadro. Agora estes putos, parece impossível, esta malta não cresce, pá!…
– Fotografia obtida através dos jogos de reflexos na fachada do Ministério da Educação, em Lisboa. (Neste jogo de sombras chinesas em que se transforma o nosso quotidiano, fica-me, por vezes, a ilusão de que a realidade não existe, mas tão só o que cada imagem dela me mostra. Sendo, geralmente, mais cómodo, ainda bem que assim não é…)
É preciso que haja mártires para que desperte a consciência cívica dos poderes instituídos que, supostamente, existem para prestar serviço público. Pelo caminho alimentam-se as iniquidades e pactua-se com o laxismo, vitamina que alimenta o compadrio…
Quem não sabe, de boa mente, que as Juntas “Médicas” a que temos direito funcionam como funcionam? E, de súbito – ó espanto! – afinal, ele há administrativos nas Juntas ditas “Médicas” e ele há médicos que se esqueceram do juramento de Hipócrates!
Continuo, no entanto, convicto de que a questão se coloca na perspectiva de que “se de um lado chove, do outro troveja”. E falo, claro destes diversos organismos que regulam e regulamentam as nossas vidas.
Assim sendo, não é admissível que uma Junta “Médica” declare, por absurdo, que um amputado das duas pernas esteja pronto para serviço activo, sendo que a tarefa que esse mesmo amputado desempenha seja, por exemplo, a de estafetagem… Porém, a sua entidade empregadora, se obriga o amputado a exercer a função escudando-se no parecer “técnico” da Junta, não revela menor desumanidade! Enfim, nada disto será razoável… Mas ocorre!
Depois, presumem que lhes basta dar uma de preocupados, afirmando que é preciso corrigir estes disparates, como se isso não fosse gritantemente óbvio desde a alvorada dos tempos para os cidadãos que vivem a vida fora das politiquices.
O que é mais curioso é que os tais poderes estabelecidos persistam na convicção de que somos todos um rebanho de ingénuos inocentes. E, pelos vistos, têm bastante razão e fundamento nessas convicções…
Morreu, segundo o artigo, padecendo de um cancro na garganta e após ”amigdalectomia esquerda e laringectomia total, com esvaziamento gangliconar cervical funcional bilateral e traqueostomia permanente”, aos 60 anos de idade.
Após a intervenção acima e com ausência total e irrecuperável da voz, o Professor pediu a aposentação. Avaliado o seu pedido por Junta Médica, em 18 de Abril de 2006, sem a presença do paciente, terá sido emitido o veredicto de que “nada o impedia de exercer as suas funções”, tendo-lhe sido recusada a aposentação.
É tão lastimável, tão desumana, tão atroz, tão repugnante esta história que, sendo verdadeira e a não haver formais e consistentes desmentidos oficiais, será imperioso, no mínimo, que sejam divulgados os nomes, para opróbio público, dos elementos que constituíram aquela Junta.
Para que a culpa morra solteira à mesma, como é hábito neste país empastelado em compadrios, mas para que me seja a mim, cidadão, ao menos permitido mudar de passeio ao cruzar com algum dos elementos constituintes de tão extravagante Junta, para não ser atingido pela pestilência que, seguramente, de tais personagens se evola!