nem a remodelação foi modelo…

Não foi um modelo de remodelação neste novelo de governação.

Nem foi remodelação, foi saturação,

foi um não querer mais, foi só demissão.

Se houvesse jograis com um verso à mão diriam que não

que não foi nenhuma remodelação…

depois da cegueira a obstinação,

nesta nossa ordeira obstipação

e fica-se assim de triste maneira a nossa nação

com certa razão alguém nos diria

que a remodelação foi anestesia

e assim perdemos todos mais um dia

e do que lá vem ao que lá virá

vai-se do deus-quer ao que deus-dará

que muito bem estamos todos nós por cá…

fotografando o dia (100)

uma réstia só de azul
um estendal só de esperança
uma varanda no sul
de uma brisa de bonança
uma luz que pinta as casas
que não vem do candeeiro
ah que ao beco nasçam asas
p’ra voar pelo mundo inteiro
– foto e poema de Jorge Castro

falando, outra vez, de pequenas coisas, verdadeiras ninharias…

Segundo a VIP (nº 549, de 23 de Janeiro), Ana Maria Vinhas abandona a redacção da TVI para integrar a Direcção de Marketing e Comunicação da EDP, passando a auferir cerca de 6.000 euros mensais, mais telemóvel, mais carro topo de gama, mais prémios de produtividade e etc..
Quem mo disse – e eu confirmei na revista citada – foi a senhora encarregada da limpeza do meu estaminé, coitada, que trabalha a tempo inteiro, mas às horas a que os outros dormem, para arrecadar € 390 por mês.
Entre outras particulares razões, a ex-pivô do Jornal Nacional da TVI – como nos vão dizendo as “fontes geralmente bem informadas” – casada recente, quer engravidar e (cito a VIP) “agora, com o emprego na EDP, passa a ter uma vida mais calma e com horários mais certos, propícios a uma vida familiar mais estável”…

Bom, eu não tenho nada com isso, pois a EDP paga o que quiser a quem quiser e, a haver alguém a pronunciar-se, serão os seus accionistas. Também da boca da própria não ouvi nada concordante com tal notícia, que até pode ser boataria da grossa, mas, a confirmar-se, é de esperar esclarecimentos ou desmentidos por parte da EDP.

Sim, que isto de se entrar numa empresa que se apresenta – ela sim e com aparente legitimidade – como topo de gama no sector energético internacional, para ela (a empresa, claro) andar a recrutar altos quadros para disfrutarem de uma vida calma, com horários mais certos e propiciadores de uma vida familiar mais estável por aquele preço, pode desencadear, por um lado, uma corrida desenfreada às cunhas, e por outro – e bem mais grave – uma desvalorização galopante na Bolsa, por óbvio descrédito quanto aos superiores objectivos que norteiam a privada empresa nacional da energia.
Aguardemos, para ver… se é que há algo de novo para ver.

a menina fuma?…

nota prévia – pela primeira vez, na existência deste blog, vai ser anunciada a concordância – ainda que circunstancial e muito relativa – com uma medida legislativa do actual governo, com explicação de porquês.
*
Não, nunca fumei… Pelo menos, nada daquilo que possa chamar-se fumar. Experimentei, menino e moço, as (então) inevitáveis barbas de milho, percorri uma passagem fugaz por uns Kentuky, apaladei uns Provisórios e não me deixei convencer pelos Definitivos. Na boca ficava-me, invariavelmente, um travo amargo e seco e, na parca semanada, um rombo enorme.
No fundo, não achei especial pilhéria àquilo e não se me deu em fumar – do meu, claro, que cigarrito dos outros levo já uma vida de fumaças, ainda que sempre condescendente e certo de que, a ser vítima de cancro do pulmão, ficaria a devê-lo, em grande parte, a alguns dos meus melhores amigos. Muitos deles, lamentavelmente, padecendo já de insuficiências respiratórias mais ou menos crónicas.
Claro que, por outro lado, esta falta de vício me coarctou um mar de possibilidades, ao longo da vida, de meter conversa, activa ou passivamente, com toda a moçoila que pairasse ao alcance do olhar e sob a batuta do vício, consubstanciada nesse arquétipo da conversa de engate: “- A menina fuma?…” (entenda-se aqui “engate” na mais nobre acepção do relacionamento humano, claro…). Mas aprendi a viver com esse handycap, que terá, porventura até, suscitado outros desafios para originalidades na abordagem.
Quem não conhece aquele que, não fumador, não deixa de trazer consigo o indispensável Zippo, que esgrime com donaire sempre que incauta donzela desembainha, imprevidente e em público, o seu cilindrozinho com filtro? E então quando era com a caída-em-desuso boquilha…
Pior, ainda, o que se dá ao deslumbramento de ser portador de cigarreira munida de refinadíssima marca, facultando dessa forma o fornecimento completo – mecha e fogo – que propicie mais especiosos avanços, nem que para tal se sacrifique, ele próprio, a umas quantas inalações solidárias, dando-se ao chique requintado de apagar o seu fumante à terceira passa!
No fundo, no fundo, é esta invasão dos prazeres por parte da etiqueta que subverte, como tanta vez e em tanta circunstância, a fruição plena da coisa.
Por estas e por outras, por aquilo que sai dificultado no enredo da sedução, é que pode vir a ser funesta esta actual legislação anti-tabágica. Quanto ao mais, das bolsas privadas até à saúde pública, creio que ficamos todos a ganhar.
Factor, por último, não despiciendo: de todos os melhores e mais cuidadosos fumadores que conheço há um efeito colateral a que nenhum, invariavelmente, escapa e que é a também colateral poluição, não aérea esta, mas mais terrestre. Na verdade, para onde vai a tirazinha de papel quando se abre o maço? E, depois, a cinza? Mais tarde, a beata? E, por fim, o amachucado maço vazio? Para cima da bela, inocente e conspurcada calçada portuguesa, claro!
E aqui está um curioso efeito do tabaco, ainda não estudado pela ciência contemporânea: o fumador – e, repito, até o mais escrupuloso – não se dá conta da cagada que está a perpetrar. Terrível e assustador! (Vá lá, quem nunca pecou, pode desatar à pedrada…)
*
notas finais – E é bom que se diga que, na concelebrada “naite” que faz as delícias de tantos, a minha relativa experiência mostra que, mais coisa, menos coisa, já estão a aparecer cartõezinhos azuis (de permissão de fumo) em muito mais sítios do que aquilo que seria imaginável. Nós temos sempre aquela extraordinária capacidade adaptativa que define os sobreviventes – mesmo que se trate aqui de propiciar a mortandade colectiva!…
Quanto ao dinheiro gasto, estamos conversados. Se, por um lado, cada um faz do seu o que muito bem lhe aprouver, certo é que está a meter uma bela maquia nos bolsos do Estado em cada maço adquirido. Maquia essa que, por imensa que seja, dificilmente sustenta os custos que, em termos de saúde, o Estado dispende com as maleitas provocadas pelo tabaco… O que é, convenhamos e salvo melhor opinião, uma redundância bastante irracional.

ah, grande Lisboa!… (11)

são caras, senhor, são caras
são caras de Portugal
se não escutas nem paras
as caras levam-te a mal
são caras de tal sucesso
são caras de chamariz
são caras sem abcesso
sem verruga no nariz
são caras de faz-de-conta
lançadas ao mundo a eito
se as não tomarmos de ponta
parece o mundo perfeito
com a escola indigente
vivo bem sem hospitais
cá por mim estou tão contente
há caras, que quero eu mais?

noites com poemas – a poesia dita popular

– Cartaz de Alexandre Castro

Na próxima 3ª quarta-feira do mês, desta feita calhando a dia 16, como habitualmente vai para três anos, terá lugar uma nova sessão de Noites Com Poemas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, com início pelas 22 horas.Desta vez, o nosso convidado especial é o Professor José d’Encarnação, que propôs como tema “Da Poesia Dita Popular“. A entrada, como sempre, é livre. O espaço, também. Quem vier pode trazer um poema (ou vários…) e haverá um tempo para o partilhar com os demais.traz um poema e um amigodá-lhe voz e nada temasque o dia se faz contigofeita a noite com poemas*Grande dúvidaAlguém me disse, há muitos anos, citando Isaac Newton (pois, aquele que levou com uma maçã na pinha lá pelo século XVIII…): “Mesmo que eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda assim plantaria uma macieira”.Eu achei a abordagem curiosa e adoptei-a como lema para filosofia de vida.Até que nasceu a internet e, a par de muita liberdade, multiplicaram-se, também, os factores de confusão. Ainda recentemente, percorrendo o universo da rede, apurei que, afinal, o autor daquela frase é nada mais nada menos que Martin Luther King (séc. XX)… Ainda mal refeito do choque, apuro que alguém refere a frase como sendo da autoria de Martinho Lutero (séc. XV).Que possa haver aqui confusão de maçãs entre o Newton que levou com o fruto, até ao Luther King cujo discurso está disponibilizado pela Apple ou, ainda, com o nome de Luther, que tanto pode ser o King como o Martinho… o meu coração balança. Alguém sabe, afinal, quem é que se lembrou das maçãs neste contexto? Por favor, faça a caridade de mo dizer nos comentários. Obrigado.