(- Então e um poema? Perguntam-me alguns… A verdade é esta: com tanto espalhafato e luminescência, com tanta aparência transmutada em realidade, com tanta realidade terrível demais para ser verdade, fica onde esse lugar para um poema?…)

Que sentido faz cantar?
De que serve a nossa voz?
Em que lugar do olvido
nos vamos perder de nós?

E o mar? Sua cadência
não dá sentido à distância?
Nem o vento
torvelinho
embala ou revolve o ninho
nos ramos da nossa infância?

O que muda
ou permanece
quando o homem que é humano
da humanidade se esquece?

O que muda
se acontece não sentir da urtiga o dano
entre verdade e mentira
tanto vale quem dá ou tira
e o que é
é o que parece?

E será só que anoitece
cada dia
em cada ano
porque a Terra gira fria
no Universo onde mora
ou porque é chegada a hora
por decreto ou litania
de dar luz ao desengano?