fotografando o dia (98)

neste cantinho do mundo
de pé descalço em calçada
sei do mundo o mais profundo
de mim não sei quase nada

espreito e não aproveito
quanto vem do mundo à pressa
se calhar falta-me o jeito
de virar pés p’rà cabeça

já ouvi falar do mar
navegar de ondas eternas
e de no mundo eu penar
já me vão doendo as pernas…
– foto e poema de Jorge Castro

Pelo jeito que as coisas levam, o Natal é mesmo de calendário, que já não é muito viável presumir ser ele quando a gente quiser. Mas, com a mesma lógica, o fim do ano é, inexoravelmente, no dia 31 de Dezembro.

Perante isto, aqui fica lavrado que eu faço questão de que aquele que está para vir seja bem melhor do que este que passou.
Melhor em quê? Ora, em felizes realizações, claro, que os momentos felizes existem! E é mais certo que aconteçam se os ajudarmos a acontecer.

Boas Festas com gente dentro…

Aconselha-se, nos blogs, a mensagem curta e incisiva, de leitura rápida e entendimento imediato, que o tempo não vai para ‘perdas’ de tempo…

Assim, vou fazer exactamente o contrário!

Estamos na quadra natalícia. Impus-me, como todos os anos venho fazendo, elaborar um cartão de Natal em forma de poema que dirijo a todos aqueles, próximos ou distantes, com quem partilho os caminhos da vida. A volta do correio é sempre um encantamento.

Decidi, por isso, partilhar convosco neste espaço não apenas o meu poema de Natal para 2007, como também duas das mensagens que, entretanto, recebi de alguns bons amigos, o Arnaldo Pereira Coutinho, o José Fanha, o Luís Roxo, o Francisco Torres, o Manuel Freire, o Miguel Brito, a Edite Gil… que compõem, na diversidade de estilos e abordagens, o meu entendimento do espírito de Natal.

Inventem, pois, o tempo. Não o darão por malbaratado.

*
NATAL
do Arnaldo Pereira Coutinho

Jorge, deste-me vontade de escrever um Natal que, agora, compartilho contigo.

Os doces

Desde logo o bolo-rei, as frutas cristalizadas a fava e os brindes embrulhados em papel.
Mas, mais ainda, as fatias douradas da avó Maria, prenhes de calda, de açúcar com canela.
Pelo caminho, coscorões da Avó Regina que Deus tem e as filhós feitas pela Marília com receita da Dª. Beatriz que, lá de cima, se orgulha desta vizinha tão prendada.

As cores

Como berlindes, as frutas enfeitam os bolos com o Natal das iluminações das ruas da baixa. Nas árvores cobertas de branco-algodão, as bolas de vidro vão adiando o “que pena que se partiu mais uma” e uma jubilação sem glória, trocadas por enfeites de plástico de formas e cores de atiçar um conflito de gerações. As casas ganham o brilho amarelo da corrente de 220 voltes espargida pela casa como se do lastro da fada Sininho se tratasse. Sente-se um efeito de levitação e sonho.

Os cheiros

São os fritos cortados pelo adocicado de muito açúcar espalhado que se mistura com frutas frescas – o ananás amadureceu e propaga o seu delicioso perfume ainda não quebrado pela tropicália de sabores que sucederam, depois de várias épocas, às especiarias da primeira globalização.

Os sabores

Do bacalhau ainda reservo algum amuo. As peles gelatinosas não percebiam o que a imaginação esperava da festa do Natal. Reservo o sabor do azeite espicaçado pelo frio de Dezembro que, com o pão mal cozido, chegavam para reduzir a nada a decepção daquela tradição incompreensível. Mas do cabrito levado ao forno da padaria e adornado de batatinhas de face corada, passam-me filmes de encantar que recordo com água na boca. Mesmo do galo que actuou como genérico em algumas das celebrações, nada a apontar. “Já cá canta”, era sempre a expressão final acompanhada a afagos de duas mãos aconchegando o estômago.

As pessoas

Era a família que chegava e outra que se chegava. Eram dias cheios, dias acompanhados. Era música, não, eram hinos de cânticos de crianças e de outras vozes todas de Natal. E era a conversa. Muita conversa que se misturava entre grupos de pessoas numa agitação reservada para a quadra e que só nela parecia fazer sentido. Tudo acontecia numa embalagem de harmonia em que as coisas eram isso e o contrário também. Do frio se gerava o calor; da ruidosa conversa o santo silêncio; do pequeno galo o farto peru; das perdas recentes os ganhos da vida presente e, assim, de pouco e nada se tinha muito e tudo. É esta alquimia do Natal que sempre recordo e que ano após ano espero ver repetir-se.

Abraço muito amigo … de todos cá de casa.

Arnaldo

*
UM GRANDE ABRAÇO
do José Fanha

Escrever é uma festa, uma aventura, um mergulho, uma viagem.

Escrever é uma cana de pesca que lançamos para dentro e para fora de nós. O anzol vai por ali abaixo e na volta vêm emoções, afectos, dores, sonhos, ilusões, utopias.

Quando escrevemos, estamos a abrir novos espaços, galáxias, continentes, oceanos fantásticos que só existem através das palavras.

Quando escrevemos tudo é possível. Podemos inventar o mundo e inventarmo-nos a nós próprios. Podemos chamar alguém que está longe ou já partiu para regressar ao nosso convívio no canto da saudade e da memória.

Por tudo isto, em certas épocas, desatamos a escrever a quem amamos. Às vezes nem temos tempo para parar um pouco a dar espessura e verdade às palavras que enviamos. Ou falha-nos a imaginação no meio da lufa-lufa da vida. Ou tornamo-nos presas do mecanismo mais ou menos perverso que envolve o mecanismo das comemorações. Socorremo-nos então de frases feitas, cartões, e-mais enviados e reenviados.

O Natal é assim. Tornou-se assim? Ou foi sempre assim? Não sei.

Sei que para mim, repito, escrever é uma festa. E com esta festa comemoro a outra, a do Natal. Nascem palavras. Nascem ideias. Nasce e renasce a vida. Uma festa para viver por dentro do coração.

E nesta festa, em volta das palavras, relembro-vos a todos, amigas e amigos queridos, mais antigos ou mais recentes, gente com quem marchei braço a braço para conquistar a liberdade, para sonhar, para partilhar o novelo dos afectos e o fogo das paixões, amigos ao lado de quem mergulho nos mistérios da vida, com quem partilho o deslumbre, a inquietação ou a desobediência.

A todos gostava de juntar num grande abraço e lembrar um poema do David Mourão-Ferreira, dos mais singelos que conheço.

SURDINA DE NATAL PARA OS MEUS NETOS

Ó David Ó Inês
Vamos ver o Menino
inda mais pequenino
que vocês

Vamos vê-lo tapado
sob o céu do futuro
com a sombra de um muro
a seu lado

Vamos vê-lo nós três
novamente a nascer
Vamos ver se vai ser
desta vez

PS. Já agora podem visitar o blog e se assim o entenderem, deixem uma palavrinha.

http://queridasbibliotecas.blogspot.com/

*

do Luís RoxoSe fosse Natal todos os dias não estaria agora a desejar-te um Bom Natal. Em certo sentido, até poderia considerar que o Natal, enquanto celebração de um nascimento, o é diariamente se não esquecer, e alguns povos da antiguidade acreditavam nisto, que o despertar matinal é, em si, algo semelhante a um renascer. O velho conflito entre a luz e as trevas.Por outro lado, sendo o Natal praticamente coincidente com o solstício de Inverno, que em poucos dias antecede aquela data canónica, poderiamos ainda, e com fundamento natural, celebrar o regresso da luz aos domínios da escuridão, tal como o faziam os antigos. Uma memória remota!Mas a moderna civilização contemporânea não pode perder tempo com antiguidades. A ocidente do mundo, o velho mundo ocidental festeja quase tudo o que já esqueceu.Para (te) relembrar, apesar de (te) relembrar com frequência, aqui deixarei o meu testemunho (quase convencional) e que, habitualmente, deixamos gravado nesta data.E para não ser desajustado desejo-te “Um Bom Natal e Um Feliz Ano Novo”, sem esquecer que, a partir de hoje, os dias serão cada vez mais luminosos e a temperatura do ar acabará por subir.Mas quando, nas tímidas e frias manhãs de Janeiro, nos for dado observar no céu o cintilante brilho de Vénus, poderemos redescobrir, na aparição daquele que leva a luz (lux ferre), que nem sempre o que celebramos é uma ficção.

Luís Roxo
*do Francisco Torresnão são fáceis as palavras para do Natal falar
em nós estão mas não claras
em trambulhão constante do melhor e do pior
do feliz e do infeliz
do roto do pobre do nu do rico
não são fáceis as palavras em tempos de natal
elas estão aí apesar de tudo
em mentes corajosas que teimam
em ver estrelas no horizonte
e querem ser magos reis que se desprendem
e voam de seguida para as seguir
encontrar a estrela o seu rasto
que seja esse o caminho do natal
do nosso ou de quem o quiser

Abraço
Francisco*do Manuel Freire(com a irreverência e o eterno combate contra aqueles que não sabem que o sonho é uma constante da vida…)Neliz Fatal, Foas Bestas e Épinuir!

Manuel Freire*do Miguel Brito (com o seu especial e assumido carinho pelos carochas…) *
da Edite GilO NATAL DA MINHA INFÂNCIA

Na minha infância
O pinheiro de Natal era um pinheiro
Um pinheiro sempre verde
O cheiro…
O cheiro era o de pinheiro manso
Algumas pinhas agarradas aos galhos
Ajudavam a vesti-lo de uma forma humilde mas genuína
A avó pendurava Pais Natal e sombrinhas de chocolate
E uma nota de Santo António para cada neta…
O avô amassava as filhós e acendia a lareira que
num canto da sala crepitava os sons de Natal…
Na minha infância
O Natal era ingenuidade e pureza
O Natal era a família
A paz, a harmonia
A pureza doa afectos
A solidariedade entre as pessoas
Era um menino semi-nu, numa manjedoura…
Na minha infância
O Natal não era consumismo
Nem presentes caros
Nem mesas ricamente adornadas
Fomentando vergonhosas ostentantações…
Na minha infância
O Natal era simplesmente
Amor
Na minha infância
Os presentes eram singelos
Os presentes eram deixados às crianças,
Não eram encomendados por elas,
Mas eram uma nascente de genuína felicidade
Que nos rasgava o rosto
Com um sorriso franco da alma
Na minha infância
Não era obrigatório oferecer presentes
Davam-se de coração, eram verdadeiros
Na minha infância
O Natal tinha um brilho especialEdite Gil*NATAL
do Jorge Castro

o Natal não está porreiro

tal estão as coisas por cá
de Dezembro a dar-a-dar a Janeiro ao deus-dará
(venha um Fevereiro faceiro mais curto para respirar…)

mas o Natal de azevinho
da rabanada e romã
era o princípio de tudo
hoje é o fim
vejam lá!…

começa já em Outubro – sugam-nos osso e tutano
faz-se do Natal Entrudo que se paga todo o ano

fim do ano com acerto que desacerto amanhã
da prestação que é um aperto
do emprego que não há
do medo de vir à rua sem saber quem lá virá
de estar cada mão mais nua do aperto que não dá
de se viver do incerto que por certo morrerá

faz falta o Natal do início
da carícia do sentir
de viver no precipício por saber como voar
dos avós – do aconchego – do cachecolzinho de lã
do ar frio e da braseira
da prenda que alguém nos dá
de sermos livres de rir ou de bem saber chorar
de ouvir cantar os anjos bem cedo pela manhã
com harpas bombos e banjos em charanga que eu sei lá
de bater que sim o pé porque assim mesmo é que é
de não voar sobre as casas porque caíram as asas
mas cantando por ter fé no dia que lá virá
construindo cada dia em cada sítio onde há
uma réstia de alegria

o Natal – ah quem me dera – fosse a arte de ensinar
assim como quem espera ter o prazer de aprender

esse Natal
meu amigo
nunca terá existido…
mas p´rò que der e vier
está à mão de semear para quem o quiser colher
e eu cá o deixo contigo.

*

E porque a cada um lhe dá na telha para o lado que mais lhe apetece, aqui vos deixo uma sugestão para uma exposição de Pais Natal, ali para os lados de Sesimbra, que uma amiga achou por bem fazer em prol dos mais pequenos:

Freguesia do Castelo – SesimbraExposição de Pais Natal de Ana Pérola no Espaço ZambujalEstá patente, desde o dia 15 de Dezembro, e até ao final do ano, uma exposição de Pais Natal, dedicada essencialmente aos mais jovens.A exposição está aberta de segunda a sábado, entre as 10h00 e as 12h30, e as 14h00 e 18h30.

Noites Com Poemas

O PÓ DAS ESTRELAS QUE CAI NA CALÇADA…

Este é o desafio para a próxima sessão de Noites Com Poemas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, no dia 19 de Dezembro, pelas 22 horas.

Como convidado, contaremos com Pedro Mota, físico e poeta e companheiro de vadiagens pela poesia, que acabou de lançar o seu livro Quatro Ventos, Sete Mares, relato de aventuras andarilhas por destinos espalhados pelas quatro partidas da Terra, aí onde a diversidade humana descobre a sua riqueza na universalidade de um sorriso.

E porque a quadra é natalícia, poderemos prever libações e outros aconchegos, para que a poesia melhor flua, que o encontro é de bardos e é de brados…

ah, grande Lisboa!… (9) – esta ‘Lisboa’ é um tratado!…

27 canetas de prata produzirão 54 assinaturas nos dois livros do acto formal de assinatura do assim chamado Tratado de Lisboa.
Nós, por cá, lá vamos indo, penando penas que nos vêm dos egrégios avós… Vencimentos a perder de vista relativamente aos demais parceiros europeus, uma carga fiscal digna de figurar no Guiness, paz-pão-saúde-habitação com relações de custo-qualidade miseráveis, educação e saúde em carreira aceleradamente descendente, em busca da privatização do nosso descontentamento, pela mão de hipócritas personagens que supostamente elegemos…
Somos grandes no desemprego, no custo de bens e serviços, no sol e na seca. Acabam-nos com o medronho, com os copos de vidro, com as castanhas, tudo transformado no fumo que, poética mas desgraçadamente, sai do assador das ditas, evolando-se no etéreo azul, sem que alguém estrebuche, nem sequer em estertor moribundo.
Lê-se pouco e mal, com o parco dinheiro sobrante diluído em estádios de futebol espantosamente cheios por quem já nada parece querer da vida para além de uns chutos.
Os ‘choques tecnológicos’, anunciados com pompa e circunstância idiotas, tropeçam logo depois em ineficiências gritantes e esperadas, por desajuste de estruturas e deficiência de meios humanos e outros.
As leis, regulamentos e demais normas vão sendo passajados e cerzidos ao sabor de conveniências pontuais e tantas vezes dirigidas, que agravam injustiças e tratamentos dúplices.
As inúmeras áreas de efectiva excelência em que – contra ventos e marés – continuamos a ser pródigos, ficam a dever-se, as mais das vezes, a iniciativas pessoais para as quais o Estado olha (e se serve) apenas quando o sucesso já foi atingido a duras penas. Até lá, ele prima pela ausência distraída.
Relativamente à tal ‘Europa’ convergimos, afinal, para o quê? Para além deste cadinho de experiências toscamente maquiavélicas para onde nos vamos vendo empurrados?
C’um camandro! Este cepticismo anda a dar-me cabo do fígado. Deve ser da quadra que atravessamos, que me puxa sempre, atavicamente, de forma exacerbada e porventura algo anacrónica, para o espírito solidário, ainda mais agudo nesta altura do ano.
Esperemos, pelo menos, que as tais canetas sejam em filigrana, como manifestação de individualidade cultural. Mas não me acredito que Sócrates tenha pensado nisso…

fotografando o dia (97)

a lua verte os tons de prata
sobre a cidade que sobrevive
e o verso doura a cor da estátua
onde o poeta p’ra sempre vive

de noite a lua em volte-face
deixa que faça outra viagem
de prata a rua dourando a face
p’ra sempre nua numa mensagem

– foto e poema de Jorge Castro
– Fernando Pessoa – Escultura de Lagoa Henriques – Chiado – Lisboa
*
Sugestões a não perder:

dia 12, 19 horas – Lagar de Azeite, em Oeiras
O CRAMOL
lança o cd “Vozes de Nós”
com o apoio
da Biblioteca Operária Oeirense, o IELT e Ocarina

*
dia 12, 21 horas – FNAC Chiado (Lisboa)
Pedro Mota
apresenta o seu álbum de viagens (fotos e texto)
“Quatro Ventos, Sete Mares”

*
dia 13 de Dezembro, pelas 18 horas,
DUO VIENALIS
no Palácio Foz (Lisboa)

Duo de Piano e Violino
Piano: Ana Cosme
Violino: Luis Morais
Obras de: V. Beethoven, S. Prokofieff, E. W. Korngol e E Grieg
– Entrada Livre

publicidade descarada e assumida, de minha inteira responsabilidade

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