Com toda esta treta de que a esquerda já foi ou de que a direita já era, das evoluções das revoluções e outras circunstâncias mais ou menos piramidais a que a minha santa avozinha chamava vender gato por lebre, apeteceu-me, para este Abril, um novo poema – que aqui vos deixo – se calhar feito com palavras velhas e relhas, mas que florescem sempre que assim o quisermos, pois isto de um homem gostar de ser livre é coisa que pega de estaca.

A autoria – do poema e da imagem – é do meu amigo Jorge Castro.

ABRIL REVOLUÇÃO

Manhã fresca
Manhã força
Maré alta
Sobressalto de quimeras
E revoltas
É o sangue deste povo
Que se afoita
Que se atreve
A viver de novo a esperança

Alvorada que se faz
De vidas feita
Da coragem de gritar
Bem alto
NÃO!

Madrugada
De partir nessa viagem
De sentir
Sangue a correr
No coração

E vermelho
Só o sangue destes cravos
Que são armas
Empunhadas mão em mão
Pelas ruas
Da cidade libertada
Tais bandeiras
Sem mordaças ou barreiras
Como gritos
Como arados neste chão

Foi Abril como um rio
Foi um mar
De varrer esta canga da cerviz
De vergonha
De miséria
De silêncio
De viver quase sem vida
E sem razão
De espantar para além do horizonte
Tiranetes e caciques
E poltrões
Que sorviam na voragem mais impune
Deste povo o futuro
E as ilusões
Foi um Abril de martelos e bigornas
Um Abril de rompermos as cadeias
Que tolhiam de amargura
As nossas mãos

E foram estas as mãos com que abrimos
De liberdade esse mar
De par em par
E assim se fez Abril uma alvorada
Na manhã de nuvens densas
Dissipadas
E fomos nós
Só por nós
Que o fizemos
Que lançámos esta nau à descoberta
Do destino
Da esperança e da aventura
Velho madeiro
Por entre a tormenta incerta
De inventar um rumo novo
E um futuro

E está viva em nossas mãos esta loucura
A vertigem
De inventar em cada dia
A coragem
A alegria de viver
De fazer renascer o homem novo
Nestas mãos que são minhas
E são tuas
Nestas mãos de carícias
Duras mãos
Enraizadas no mundo
Como povo

E é este o Abril que nós cantamos
Este Abril feito de mar
Feito de pão
Que nos abriu à liberdade
Outro destino
De sonhar
De cantar
De sermos dignos
Este Abril que se faz do verbo amar
De querer sempre a vida por cumprir
De te saber sempre de mim meu irmão
Este Abril
Oh, meus amigos
Meus irmãos
Será sempre um ABRIL REVOLUÇÃO!