Sendo este um espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.
Camões e a calçada portuguesa
Só para não dizerem que não falei em flores… dar-vos ei razão e falarei de outra coisa qualquer. Que o quotidiano está aí, anda à nossa volta e não há arte maior do que lhe dar olhos de ver.
pisoteia ela a calçada
alto o salto
esbelta a perna
e o salto alto penetra
no canal lacrimejal
de quem foi grande poeta
mas jamais acidental
que ocidental era a meta
a ranhura que era fina
finória e sem ter largura
deu de si – perdeu a sina
e cresceu em desmesura
por tanto
e tanta mais treta
o salto alto penetra
naquele olho do poeta
e o artista ligeiro
corre e salta pressuroso
p’ra não dizer altaneiro
actualizando o ficheiro
que parece insidioso
assim de olho esburacado
com martelo e martelada
tira e põe pedra a preceito
aconchega e põe a jeito
o sem-jeito da calçada
e quase sem dar por nada
pedra a pedra martelada
espanto que já nem cala
varrido que é o restolho
ali nasce em quase-nada
no poeta sobre um olho
o negrume de uma pala…
– Jorge Castro
um pássaro antigo nos olhos…
um país que perdeu quase tudo…
Por Nicolau Santos
21 de Novembro de 2016
O país que perdeu quase tudo sem dar por isso
Bom dia. Este é o seu Expresso Curto, cada vez mais de olhos em bico, seja por causa de um banco, de umas eleições, de umas revelações, das pensões ou do diabo, que não arreda pé da política nacional.
O país amanhece hoje com mais um banco controlado por capitais chineses. O grupo privado Fosun passa a deter 16.7% do capital do BCP, tornando-se o maior acionista individual, através de uma operação de aumento de capital, pelo qual paga 175 milhões de euros. Fica aberto o caminho para chegar aos 30% e conta já com a luz verde do BCE para esse efeito. Também os direitos de voto vão subir do atual limite de 20% para 30%. A entrada dos chineses mereceu o acordo dos outros principais investidores, nomeadamente os angolanos da Sonangol e os espanhóis do Sabadell. A Fosun já controla a companhia de seguros Fidelidade e a Luz Saúde. Mas a entrada no BCP far-se-à através de uma entidade chamada Chiado.
O negócio é excelente para o banco, que precisava de estabilidade acionista e de aumentar capital, até porque ainda deve 700 milhões ao Estado da ajuda que recebeu durante o período da troika. Mas… o BCP é o maior banco privado português. A EDP é a maior empresa elétrica do país. A REN – Redes Elétricas Nacionais gere as principais infraestruturas de transporte de eletricidade e de gás natural. A ANA controla todos os aeroportos nacionais. A TAP é fundamental na captação de turistas para o país. Todos foram vendidos ou estão concessionados a investidores estrangeiros, assim como o porto de Sines (detido pela PSA de Singapura) e todos os outros (Lisboa, Setúbal, Leixões, Aveiro e Figueira da Foz, controlados pela empresa turca Yilport).
Ora um país que não controla os seus portos, os seus aeroportos, a sua energia (quer a produção quer a distribuição) nem o seu sistema financeiro na quase totalidade (escapa a CGD) é seguramente um país que terá no futuro cada vez mais dificuldades em definir uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Provas? A TAP quer comprar oito aeronaves para fazer face à procura crescente resultante das rotas que abriu para os Estados Unidos mas a ANA responde-lhe que não tem espaço para o seu estacionamento no aeroporto Humberto Delgado. Na verdade, os franceses da Vinci, que controlam a ANA, deveriam ter já arrancado com a construção de um novo aeroporto porque o número de passageiros na Portela está muito próximo do limite definido no acordo para que esse passo seja desencadeado. Mas preferem a solução Portela mais Montijo, que lhes sai mais barata e que só deverá estar pronta dentro de três anos, a construir um novo aeroporto, uma decisão obviamente de importância estratégica para o país.
Mais provas? Como se disse, o porto de Sines foi concessionado à PSA de Singapura. Ora, os chineses estão interessados em Sines, onde se propõem aumentar os cais e as plataformas de apoio, mais uma plataforma industrial para montarem os produtos cá e obterem o “made in Portugal”, podendo assim entrar sem problemas no mercado europeu. Só que a PSA de Singapura opõe-se e faz valer a sua opinião por ser dona da concessão. E as autoridades portuguesas pouco podem fazer porque infraestruturas deste tipo são únicas: não se podem construir outras ao lado.
É este o Estado que temos: sem poder para mandar naquilo que é verdadeiramente essencial para definir uma estratégia de desenvolvimento. E o que é espantoso é que quase tudo tenha acontecido em tão pouco tempo (entre 2011 e 2015, pouco mais de quatro anos) e que estivéssemos tão anestesiados que o não conseguíssemos evitar.
sugestão: Misty Fest
A riqueza de um património imaterial
Cada vez me sinto mais a modos que assim…
aparentemente inominável perorou, em artigo de opinião, sobre a «peste
grisalha» insultando alegremente e fazendo indignar uma parte muito
significativa de portugueses. No seguimento, um grisalho e respeitável cidadão
elaborou um notável texto em que atirou um apurado par de verdades ao indigno.
tribunal (?) condena o grisalho cidadão ao pagamento de uma multa de 4.200
euros por difamação. Querem vocês saber das alegações? Pois aí vai este naco
precioso: as afirmações do idoso foram consideradas «insultuosas e suscetíveis de abalar a honra e a consideração pessoal, política e familiar do assistente».
Isto é: a luminária que produziu os dislates fundamentou-os (?) com outras preciosidades, tais como afirmar que «o envelhecimento dos portugueses e o incremento do seu índice de dependência», para além de provocarem um «aumento penoso dos encargos sociais com reformas, pensões e assistência médica», colocam em causa a «sobrevivência» de Portugal «enquanto país soberano».
Dizendo de forma ainda mais clara, um fedelho destemperado insulta toda uma comunidade de anciãos e fica incólume. Um elemento dessa comunidade responde-lhe – aliás, com uma qualidade e elegância inalcançável pelo fedelho mesmo quando for velhinho – e é obrigado, em tribunal, a pagar-lhe uma indemnização.
Conclusão: eu, em relação à independência das instituições, nada tenho contra. Já relativamente às atitudes estúpidas e/ou indecorosas dos seus agentes…
– O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, deixou esta
quarta-feira recados ao Governo português. Disse o inteligente desta tourada
que são os «mercados» que tudo corria bem até António Costa ter tomado posse.
no que a Portugal respeita, tudo e mais um cento em favor do governo de Passos
Coelho e contra o actual governo, legitimamente constituído.
Portugal e o actual governo estão à espera para pedir esclarecimentos
institucionais ao governo alemão sobre as atitudes deste seu tão limitado
membro? Sei lá, uma convocatória do embaixador alemão com nota de desagrado e
pedido de esclarecimentos… Qualquer coisa, enfim, que provasse ao mundo e, em
primeira instância, aos portugueses que, finalmente, no governo, há uma coluna
vertebral que lhe mantém a cabeça erguida e direita.
notícia da morte de duas personalidades marcantes da nossa História recente: João
Lobo Antunes e Jaime Fernandes. É o ciclo da Vida a cumprir-se. Mas não deixa
de ser, ao mesmo tempo, um empobrecimento lamentável para todos nós.
elogiosas a que assistimos nos media,
o espaço dedicado ao futebol sobrepôs-se largamente ao tempo dedicado a essas
referências. Valerá a pena comentar…?
hora apurámos que a vice-presidente da Comissão Europeia, logo depois de ter
feito o frete de simular que disputava o cargo de secretário-geral da ONU a
António Guterres, de seu cristalino nome Kristalina Giorgieva, que já nos tinha
divertido com uma licença sem vencimento no seu lugar de vice-presidente enquanto
fazia o tal frete, demitiu-se agora para assumir a direcção executiva do Banco
Mundial.
este comentário pouco elegante mas, em boa verdade, este tipo de situações leva-me
invariavelmente a ele: a mulher de César, não apenas não é séria, como se está
nas tintas para o parecer e, bem pelo contrário, assume o seu estatuto de galdéria
com uma galhardia que estonteia… Assuma-se ela com os nomes de Durão, Portas,
Maria Luís ou Kristalina – aqui sim há, pelas evidências, igualdade de género.
– No próximo fim de semana a hora volta a mudar, em Portugal. Mas para quê, senhores, ninguém me diz?
a Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras
está de parabéns!
Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura … II
Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura 2016…?!
Nota complementar de esclarecimento: o Prémio Nobel não é atribuído postumamente, excepto em casos de morte recente relativamente à deliberação da entrega de determinado prémio. Essa circunstância reduz drasticamente os 475.322 nomes que refiro acima, mas ainda me sobram uns tantos milhares.
Claro que poderemos considerar que o José Carlos Ary dos Santos, por exemplo, quando ainda em vida – e já existia o Prémio Nobel para a Literatura… – com os seus 600 poemas musicados e os não musicados, teria sido, na óptica em presença, um caso a ponderar, obviamente que com outra pujança que o Quim Barreiros da pilhéria.
Mas entre tantos defensores e detractores do prémio agora atribuído e entre tantos autores invocados, curiosamente, mesmo entre autores do mesmo ofício, não ouvi ainda ninguém lembrar-se do Ary. E isso confunde-me, confesso.








